sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Na loteria







Ia contrariado pagar a conta do aluguel, ia contrariado por que sabia que ao pagar a famigerada conta, sua conta corrente estouraria necessariamente, e daí em diante, até o fim do mês, ficaria sofrendo nas vísceras como é que ia sobreviver sem o vil metal, dependendo do humor glacial do administrador, digo, do gerente de sua conta. Ia para a casa lotérica pensando nos lances de dados da vida, na casa lotérica iria pagar uma conta, enquanto outros lá estavam para os jogos. Sorte ou azar? Uns testando a sorte, ele clamando do azar de sua sina de ser sempre remunerado aquém do que precisava. Sorte no amor, azar no dinheiro? A casa lotérica ocupa ambíguas funções, de ter se tornado lugar onde se pagam contas, impostos, taxas, e de continuar a ser o lugar da aposta, do jogo, do sonho que pode se materializar de forma capital. Money, money, money. Não mais a preocupação com a chatice das contas, se ganhar na loteria serão só valores a receber. O sonho de que a falta se preencherá com algum objeto, ou com todos os objetos que o dinheiro pode comprar, doce ilusão. Ia pensando para que serve uma loteria, no seu caso pensava: - que azar, para pagar! Ou será que é sorte? Na famigerada casa lotérica, uma famigerada fila. ‘Acostuma-te a lama que te espera, o homem neste mundo miserável mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera’. A fila faz os segundos se alongarem infinitamente. Está fora do ar! Escutou. Cabisbaixo, ruminava suas contas, seus centavos, sintoma de obsessivo, que merda. A relação coprofílica com o dinheiro. Com a falta, será que ganhar na loteria faz alguém feliz? Pensava, evitava a câmera que com um olho sem pupila filtrava a cena da rotina da fila da sorte e do azar. Na boca do caixa, um sujeito muito chato tagarelava alto uma história interminável, se vangloriando na sua estupidez ‘coito de impotentes a corar ao sol no riacho da estupidez’- Almada Negreiros. A fila que era longa e viscosa pareceu agigantar-se. Por um segundo observou diante de si um flerte. Uma cena discreta e gritante ao mesmo tempo. Um paradoxo. Um septuagenário alto, com seus óculos excessivamente grossos, que denunciavam sua quase cegueira, se esgueirava junto a uma moça que pecava pelo excesso no destaque de seus atributos femininos. Denúncia de uma histeria. O braço murcho e longo do velho, a pele sem tônus que revelava a incidência do tempo se deixava encostar no braço da moça. Braço desnudo, com ombro desnudo, com barriga desnuda. Uma moça semi-desnuda. Anca larga. Cabelos negros e excessivamente volumosos. Contraste com o grisalho absoluto sem saudades dos castanhos do velho. Ele murmura alguma coisa, discretamente, em um cicio. Emprego, um amigo pode ajudar. Ele quando olha para ela tem um olhar de cobra hipnotizando sapo. Ele não olha o tempo todo, é sutil, porém quando olha seu olhar é guloso. Aparentemente a moça lhe desperta saudades viris. Por algum motivo, apesar dela beirar o mau gosto pelos excessos, ele se sente fascinado. Suas carnes velhas contrastam com as carnes da moça. Talvez ela lhe remeta a amores antigos. Talvez apenas fantasias, ‘uma lembrança de ternura’? graças a essa tecnologia maravilhosa, a tumescência é um produto de mercado. Os homens não precisam mais amargurar da carne flácida. Pesadelo do homem com seus símbolos, a concreta carne e o que ela, quando funciona ou não representa. Um mal estar na fila. Uma senhora, lançando mão de seus direitos de sexagenária se encaminha para a cabeça da fila sem titubear. Casa lotérica, lugar de sorte, azar e de direitos também. Por ter mais de sessenta anos deve ser atendida primeiro. Há um porém, retruca a insensível moça do caixa. Existem outros anciões na fila. E também a fila é longa, deve-se pedir aos senhores na fila a permissão para o exercício do direito, ou mesmo a concessão do direito de exercê-lo. Os senhores na fila permanecem estáticos. O meu bom ancião, Dom Quixote em flerte não move um músculo na face. Seu silêncio mostra que abre mão de seu direito. Alias, estava garboso, ereto como se apresentava ao lado da moça, permaneceu. Não dava para ver seus olhos por traz dos grossos óculos, mas é possível que expressassem um contragosto. O sujeito em meio a um enredo fálico, sensual, buscando na oportunidade da fila carne fresca para a alma cansada. Lembranças de rapaz, lembranças de homem, uma pílula assertiva não o negaria o deguste. O desejo aceso junto ao progresso da ciência faz no homem a sensação de imortal, um falo se ergue poderoso, uma prótese qualquer há de sustentá-lo. Afinal, para que serve o desenvolvimento da ciência. Pagamos tão caro pela vida moderna. Um comprimido não o deixaria mal nos lençois, lençois, lençois, e essa velha idiota com esse papo de não querer exercer o direito deles, eles os senhores idosos não querem ir para a frente da fila. Para o caralho com a frente da fila, pensa o velho. Eu quero é ficar aqui atrás. Sentir o cheiro jovem da boa carne da boa moça com seus cabelos negros. Cacete de fila que anda. Surge a sua vez de ser atendido, o idoso oferece o lugar a moça, ela recusa. Ele anota o telefone para ela em um cartão de loteria. Grande jogada, grande lance, no cartão de loteria. Vai dar sorte pensa. Ela vai me ligar, repete para ela em voz baixa: - ele estava mesmo precisando de alguém para ajudá-lo no escritório. Pergunta ainda: - qual o seu nome? – Ana. Ele não vacila, não perde a oportunidade, o tempo urge. Um lance de dados, solicita doce e firme para ela: - anote o seu número para mim. Vou falar com ele hoje ainda. Ela anota num papel de jogo. Um homem nessa idade deve ter dinheiro! Já vi ele andando de carro pela rua. Carro bom. Quem sabe? Quantos anos mais ele deve viver? Será que tem filhos? A herança é boa? Deve ter casa própria. Será que tem outros imóveis? Ela anota, Ana 3411... Ele volta da boca do caixa, pega o papel, guarda-o no bolso, passa o seu para ela. Um sorriso discreto, vitoria pensa, delícia, gostosa. Vou te comer todinha. O velho ganha a rua, altivo, confiante. Chego na boca do caixa, a câmera me filma, meu olhar é vago, minha testa está franzida. Essa merda desse aluguel vai estourar minha conta.
















Anderson Matos

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