Você é uma sacana, colocou uma de suas fotos entre aquelas que figuram em meu fundo de tela do computador. Não imagina a minha surpresa, o dia que atônito, vi surgir sua imagem entre as fotos que tomavam lugar na tela. Escolheu uma da série ‘trepa’; como você assim nomeou estas fotos. Tratam-se daquelas em que você fez caras e bocas sexy para a câmera do computador. Olhares enigmáticos, junto com o cabelo jogado assim ou assado e a alça da camisola que aparece, dão o tom de erotismo. Não obstante existem ainda algumas que você tirou comigo colado no seu cangote, comigo lhe esfregando a barba na nuca. Olhos de soslaio, meio abertos, entre sorrisos sacanas, mostram-nos calientes, são apimentadas estas fotos, parece que se não estamos ainda, vamos realmente trepar logo.
Imagine só, eu sozinho olhando para as teias de aranha no teto, escutando qualquer coisa, pensando em tudo e em nada. Entre Freuds, Davincis, fotos das loucas de salpetriére, Umbertos Ecos, olho barroco e mapas das paixões, me aparece você com aquela carinha safada. Estas fotos aparecem em slowmotion, vem ganhando a tela devagar, e uma se sobrepõe à outra.
Passa Freud com um olhar vago, meio triste, passa a linda foto que eu tanto gosto, de Augustine em êxtase, depois a tabula antropométrica chamada ‘De La simmetria dei corpi humani’,
e ai entra tu. Foi como se eu tivesse ganhado um tapa no rosto. De novo com sorriso de gato de Alice, um olho vadio, me desafia, erótica. E como se você me perguntasse: - e então idiota; - feliz? E então estúpido, está vendo isto aqui? É uma mulher, mas não uma mulher qualquer seu trouxa! Aqui é 'A' mulher. A mulher que te deu amor e colo. Imbecil! Você está feliz, hem seu idiota? Fala! filho da puta! Você está bem agora? E ai você some e entra no seu lugar a foto do ‘Afresco do inferno’ de Giovanni de Modena, logo depois a cabeça da Medusa, segue o sacrifício de Isaac, do seu tão querido Caravaggio, depois o jardim das delícias de Hyeronimous Bosch, logo depois ‘Alma atormentada’ de Michellangelo, Prometeu acorrentado, o Juízo final, de novo Bosch, ‘Judite e Holofernes’, de novo Caravaggio.
Como você pode notar, não fui ao casamento ontem. Preferi a presença da ausência. Não sei como iria me comportar no social, perto e longe de você. Não sei como iria olhá-la, não sei se saberia me portar bem. Ver nosso filho entrar de pajem em uma igreja provavelmente me encheria os olhos de lágrimas. Passaria um turbilhão na minha cabeça e nossa vida seria revista em flashes rápidos, como uma alucinação visual, tudo passaria rápido durante a caminhada do garoto pela nave da igreja até chegar ao altar. Sei que isto me emocionaria e me faria sentir uma pontada aguda no peito. Eu me sentiria ainda mais idiota, ainda mais sozinho, ainda mais equivocado, ainda mais perdido, ainda mais Holofernes, me sentiria como um Louva-Deus degolado pós-coitum. Por isto, cometi a indelicadeza para com toda da comunidade de amigos e não dei as caras, eles não mereciam a grosseria, mas eu e meu não-lugar, estaríamos ainda mais sem lugar ali.
Tirei a foto que você colocou entre as que ficam para fundo de tela. Na verdade, ela já havia aparecido antes, um dia durante uma aula, o notebook entrou em estágio de descanso e estas fotos surgiram na tela, por acaso, neste dia, ela estava virada de modo que alguns alunos conseguiam vê-la. Percebi um sorriso acompanhado de troca de olhares de alguns e olhei rápido para o computador para ver o que tinha ocorrido, vi apenas sua imagem fugindo da tela de relance. Mas não me ocorreu naquele momento de tirar, acabei me esquecendo disto. Só depois é que fui vê-la novamente. Esta imagem funcionou como tem funcionado minha lembrança. Tento encher meu pensamento com outras coisas. Tento não pensar no que ocorreu. Tento não sofrer. Eventualmente contudo, você, seu cheiro, seu gosto, sua temperatura, invadem meu sossego. Assaltam minha lembrança e se perpetuam no meu pensamento, açoite. Parece a pulsão freudiana, não se tem para onde correr. É duro, como dizia Leminski. O chão é muito duro.
Anderson Matos


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