
Seria tão bom se houvesse uma chave que fizesse o desejo iluminar-se apenas no lugar certo. Seria tão bom que tivéssemos sempre a certeza de que nos acendemos aonde devemos de fato fazê-lo. O ideal seria que o desejo funcionasse como uma chave que se incandescesse apenas diante do outro escolhido, o objeto eleito, aquele que chamamos nosso amor. Mas obscuras motivações não raro atravessam este caminho, poderíamos pensar talvez que curiosas inclinações da natureza costumam sabotar estas intenções. Caprichos, estranhos caprichos da biologia que não levam em conta nada daquilo que a moral, as regras, as normas sociais estabelecem na gestão do desejo. A gestão do desejo na vida romântica, passa ao largo da biologia, na via do amor sacramentado o desejo deve ser adestrado, mostrando-se apenas à cara-metade. Contudo este afeto tão bruto costuma não ser muito racional, bem como leva também pouco em conta argumentos sociológicos, antropológicos, religiosos, morais. Fortuitamente, ele assalta o vivente. Não se sabe bem o que faz com que alguém seja do ‘seu número’, mas todos sabemos como eventualmente podemos ser surpreendidos desejando, observando, olhando para algo que não devíamos, mas de alguma forma queremos, e mesmo que isto seja absolutamente inadequado ou impossível, o desejo ferrão da carne cutuca. Importante notar como isto pode ser enganoso, insustentável, puro semblante, aviso aos inadvertidos, o desejo adora se agarrar aos semblantes. Algumas vezes contudo é possível tentar ver se tal afeto procede, normalmente aferere-se isto no encontro com a carne. Nestas horas abrem-se as cortinas, e então a disciplina ‘química’ mostra toda sua pujança. Em português costumamos usar exatamente esta palavra para manifestar se houveram afinidades ou não nos encontros carnais. Então a química, que ‘bate ou não bate?’, outro nome para as estranhas inclinações, torna-se a senhora da situação. Quando nossa química bate, entre outras coisas, tornamo-nos docilmente serviçais. Tentamos fazer com que tudo se encaixe, o poder dessa química no encontro dos corpos e na encarnação do desejo é determinante. Existem aqueles que irão por toda sua vida se contentar apenas com isto, outros levarão em conta mais ingredientes, mas não se pode negar o poderio que reside neste encontro ‘químico’. Farmacotóxico. Veneno que cega a razão, encontro com poder de fazer tudo parar, de interferir no tempo, interfere visceralmente. É impressionante como somos viscerais. Nossa sexualidade, lugar tão característico para o desejo, é exatamente o elo da corrente, como diz Freud, é o ponto onde o indivíduo e a espécie confluem, o indivíduo durante o coito busca seu prazer pessoal, seu êxtase, e ali, sorrateira, líquida, entre fluídos a vida passa, é ali, que a vida vai adiante. Muitas vezes não nos lembramos disto, mas é assim que acontece. O tal desejo fez uma parceria com a carne indissolúvel, eles se entendem muito bem. Nós é que não entendemos muito bem isto. Tentamos domesticar os desejos. Valorizamos a fidelidade, regulamentamos juridicamente uma monogamia, dura Lex, sed Lex: - quem sabe assim eles se seguram? Mas na verdade, não, a lei não consegue adestrar nosso desejo. O desejo é um bicho sem cabeça, acéfalo de nascimento. Talvez pudéssemos dizer que o desejo foi forjado em cima de materiais muito arcaicos, primevos, e por isto guarda tanta insubordinação, por isto é tão errático, indócil, guloso. O desejo desconhece a razão, desconhece os princípios, ignora a norma, despreza a virtude, despela o sujeito e o escancara sem véu. Quando você olha no espelho e encontra com ele e consigo mesmo, aturdido, se pergunta: - Meu Deus; eu sou isto? Esse desejo, delícia e desespero, na verdade mostra como permanecemos indomados. Como somos frágeis, como nossa boas intenções, como as normas e as leis, são frágeis, tudo é delicado como um cristal, bruto, só aquilo que sai de dentro, este sim, legítimo representante da nossa ignorância sobre nós mesmos dita o curso das coisas. O desejo, o meu desejo, é meu e não é, quando olhamo-nos olhos nos olhos, nunca sei quem manda. Sabe, não costumo ceder tão facilmente a ele, tenho noções rudimentares sobre como deixá-lo à deriva pode ser desastroso. Mas me pergunto sobre ele, miro-o, vejo-o me fazendo mirar. Os anos advertem sobre o fato de que o desejo é cheio de caprichos. Atendê-los pode ser complicado. Estes caprichos mesmo que inicialmente pareçam uma deliciosa volta no paraíso, quando momentaneamente atendidos, podem se metamorfosear em um verdadeiro tour com o diabo servindo de guia, no inferno. Temos questões importantes aqui. Quando você trai alguém, traiu quem? Uma pergunta lacaniana.Traiu a si mesmo? Traiu ao outro? Ou foi honesto com seu desejo? Ou traiu seu desejo momentaneamente? Foi fraco? Foi forte? Foi humano? Foi animal? Animal, animal, animal, foi animal, apenas animal. Você, meu caro escravo mostra assim quem manda, você não é mais que o serviçal de um despótico desejo senhor. O desejo, e sua promessa de felicidade no encontro com o que resolverá a falta te engana, o desejo é guloso, ele não se sacia. Você, cego e burro tenta saber sobre ele, recolhe-te em tua ignorância. Você criatura de carne não tem que saber disto, contente-se em dele gozar e dele padecer.

Anderson Matos
Nenhum comentário:
Postar um comentário