quarta-feira, 2 de março de 2011

Um Nome para o Pai


Goya, Saturno devorando su hijo



 

Recuava horrorizado diante do vazio que lhe era oferecido. Do refluxo de todos os erros, recolhia os fragmentos, as seqüelas, parcelas de uma vida levada sem projetos. Tudo aconteceu. Respirava entre fumaça, tabagista, ressentia dos seus vícios. Homem, ressentia dos seus erros: - humano, demasiado humano. Se sentia apenas sobra, resto da operação da biologia, da economia, da psicanálise, aturdido se olhava e nada via. O tal objeto a tão caro a Lacan, encarnava-o, objeto caído, dejeto de 68, resto do discurso capitalista que mandava gozar. Eternamente submetido novo escravo, velho serviçal de um gozo que dele escarnecia, deixando-o sem lugar. Não há lugar, o caminho do inferno está pavimentado pelas boas intenções. Não tinha boas intenções, apenas intenções intestinas. Sabia há muito tempo que não era causa de si mesmo, já aprendera, não era causa sui, não é o bastante ser apenas isto, ser causa para si mesmo. Já disse, uma biologia, uma economia, e a sua total insensibilidade para com o que é verdadeiramente um projeto, lhe conduziram a se sentir como agora sentia, era apenas um resto. Um resto ululante que tentava sua publixação. Ou ainda mais verdadeiramente se sentia um nada, sem ler Augusto dos Anjos ou Pessoa, sabia que era nada, com Lacan, aprendia mais especificamente que era só um resto. Não conseguia se esquivar da influência da sua trajetória, Lacan lhe contara que o pai é só um nome. Nome-do-Pai, cazzo. Não é porque saiu da biologia que se torna Um-pai. Não é o espermatozóide que funda um pai, meu Deus, como sabia disto. Se sentia daquele modo como apenas aquilo que se perpetua como nome, e também sem nome, inominável. O inominável era exatamente aquilo que era forçado a passar e que não sabia dizer. O que transmitiria? O que recebera como herança? O dito de Goete nestes casos parecia ter ressonâncias nefastas: aquilo que recebeste como herança, conquista-o para fazê-lo seu. Meu Deus, aflito se perguntava: - o que é seu, o que é verdadeiramente seu?



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