sábado, 15 de janeiro de 2011

Estamira, tu não me viste queimando?












De repente as caixas foram surgindo, sutis, e os objetos foram sumindo, de forma igualmente sutil. Envelopes, sacos plásticos, caixas de tamanho diverso iam engolindo a rotina que se espraiava pelos guarda roupas e prateleiras. A decoração que se encontrava pendurada na parede e as cortinas foram as últimas a sair. Antes delas, copos, pratos e panelas já não se encontravam mais. Os objetos da dispensa dispensaram-se uns aos outros. As roupas sujas foram todas lavadas. A mesa foi a primeira a ir. Ela não foi em caixa, suponho. Apenas chegou-se e ela não se encontrava mais, móvel imóvel, não se sabe quantas pernas a levaram, provavelmente quatro. Para mesas grandes gasta-se ao menos duas pernas ao quadrado para carregá-las. De toda forma, ela não havia saído dali sozinha, menos ainda numa caixa. As caixas comportavam os objetos menores do dia-a-dia. Nas caixas ia o cotidiano pequeno. Custou a perceber a ausência dos objetos, mas de repente viu-se forçado a concluir, os objetos não se dissolviam no ar, nem haviam seus estilhaços pelo chão, não se tratava de nenhuma catástrofe, era apenas mudança. Amores novos e velhos, pura repetição, exigiam a presença das caixas para novas mudanças. Para muito além das caixas, coisas miúdas o atormentavam, como afinal alojar e desalojar as pequenas partes daquilo que persiste em dia e dia? Como se dar conta dos novos espaços? O que fazer diante do vácuo causado pela ausência dos objetos da rotina? Toda esta sorte de ignorância haveria de ser superada, pois todos os objetos de fato importantes deveriam ser carregados, aqueles que não, que fossem substituídos. Haviam sempre objetos que não deveriam ir mais, que deveriam ficar, ser dissolvidos. Parte destes objetos era apenas papel, preto no branco. O documento que não documenta mais por si só deveria ser dilacerado, volume sem sentido, dejeto de destino certo que se rasga no lixo. Estamira advertira que lixo é resto e descuido. Ela apenas não sabe, Estamira que estava no começo de tudo (palavras dela), que parte do lixo é afeto que não encontra mais lugar. No lixo Estamira há também muita papelada, documento, registro, afetos regidos por palavras, papel atestando existência, papel que amarela no tempo. Estamira minha querida além de todo o descuido e o resto existe tanta coisa mais no lixo. Existem tantos corações rasgados, segredos inenarráveis mofados, testemunhos apócrifos, confissões nonsense, delírios celotípicos virulentos, culpas com bolor e muito odor. Estamira foi você que me advertiu que todo mundo era escravo disfarçado de liberto, não venha me dizer ainda que achava que o lixo queimava apenas por causa do chorume!




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