Era fato sabido que ele não gostava de aniversários. O dela o rondava há uma semana, momento delicado, ele acreditava que até aquela data já teria ido até aonde haviam morado e retirado o resto de suas coisas. Seria a vez dele de ser Katrina, sua ida até o apartamento tiraria coisas do lugar. Quando ele saísse, pareceria que um furação inundou de novo New Orleans. Espaços ficariam vazios, objetos seriam retirados, desarranjo, arranjo. Não é exatamente o tipo de coisa que ele gostaria de fazer em um dia de aniversário. Aliás, ela sabia que de certo modo ele não gostaria de fazer isto de jeito nenhum. Mas foram e se conduziram até este ponto. Já há alguns meses suas escovas de dentes não se olhavam mais e seu paletó não enlaçava mais o vestido dela, os sapatos deles também não se bicavam. Já não misturavam mais o cheiro na cama, nem se encontravam mais nos lençóis os pelos dele, ele igualmente não mais viu os rituais matinais de cremes da mulher. As coxas não guardaram-se umas entre as outras antes de dormir. Não se sentou mais na cabeceira da mesa. Tantas coisas mudaram, passou a usar óculos, aprendeu a lavar roupas, tornou-se quase um obsessivo ao ter que se atentar para uma organização que nunca teve. Foi manquetulando, claudicante tendo que achar lugar. Queixou-se tanto disto. Dar Adeus era encontrar um terremoto, um maremoto, uma tsunami, o caos, era encontrar as revelações estrondosas da natureza. A outra face do amor é muito turbulenta. Pelos marcos da vida iam e eram levados. Existem pelo caminho tantas ante-salas do inferno, portais que se atravessa sem ver. Dizem que antes do aniversário, imediatamente antes, existe um tal inferno astral. Ele na verdade não sabia porque não gostava de aniversários, talvez alguma expectativa infantil frustrada, provavelmente uma decepção que de algum modo foi necessário recalcar. Talvez em algum de seus aniversários ficou esperando alguém que não apareceu, que não se fez presente. Vida besta. Ele pensava; como a gente carrega coisas estranhas não? Algumas a gente escolhe, outras nos são dadas, existem ainda aquelas que são enfiadas goela abaixo. Tanta coisa pra engolir. Vida besta, homem besta, mulher besta. É a própria besta que toma conta do inferno. Para se acalmar ele dizia: aquieta-te, o inferno passará, para todos nós, o inferno passará. O sol voltará a brilhar, o céu permanecerá sem nuvens. As turbulências cessarão, dois vôo 447 não caem no mesmo oceano. Muitas pessoas naquele dia manifestariam o afeto que tem por ela. Que ela se deixasse abraçar, que não carregasse como ele, aqueles estranhos afetos que nem ele sabia bem como explicar.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
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